A agricultura familiar é responsável por 60% dos alimentos produzidos em Goiás, segundo dados da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO). Nessa categoria incluem-se microprodutores, também responsáveis por 60% do abastecimento de hortaliças nas feiras livres de Goiânia. É o caso de Cícero Lopes do Nascimento, de 65 anos. Em 1980, ele se estabeleceu em uma área de um alqueire, no Parque Amazônia, onde fica sua modesta casa e a plantação de hortaliças. Ao lado da mulher Josefa Luís do Nascimento, 60, e dos três filhos, tocou seu negócio e conquistou freguesia sem nunca fazer empréstimo, mesmo sabendo que o recurso existe.
É o que confirma o gerente de Desenvolvimento Regional Sustentável do Banco do Brasil, Ricardo Fernandes Esteves. Segundo ele, os microprodutores têm direito à linha de crédito especial, no Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf) ou microcrédito rural. Mas, dificilmente, procuram o financiamento, como é o exemplo de Cícero Lopes. Ele não se interessa pela oferta.
O gerente Ricardo Esteves explica que apenas 150 desses microprodutores estão cadastrados na Distribuição de Arrecadação Federal (DAF). “Sabemos que na Região Metropolitana de Goiânia há muito mais desses agricultores, mas a maioria não tem cadastro. Eles atu-am de maneira informal, o que dificulta a estatística”, diz. Para o gerente, talvez essas pessoas desconheçam as facilidades de se obter crédito.
Medo
O engenheiro agrônomo Wilson Mozena Leandro, professor da UFG e doutor em manejo de solos, acredita que o microprodutor tem medo de se endividar. “Eles têm aversão ao crédito, temem que algo dê errado e comprometa o sustento da família. Eles têm muito medo de sujar o nome”, ressalta.
O professor relata que a falta de assistência técnica e o baixo investimento também caracterizam essa agricultura intensiva. “Eles não têm grande ambição, geralmente arrendam terrenos no perímetro urbano, utilizam esterco como adubo e se valem do conhecimento popular no cultivo das hortaliças”, explica. Ele destaca ainda que os produtos desses trabalhadores são vendidos nas feiras livres da capital e também em carrinhos, pelas ruas dos bairros. “O ganho com a produção é suficiente apenas para garantir o sustento da família”, garante Leandro.
“MEUS INTRUMENTOS SÃO AS MÃOS E A ENXADA”
Cícero Lopes conta que trabalha com horticultura desde os 8 anos e se orgulha de nunca ter feito um financiamento bancário. “Fazer dívida para quê? Meus instrumentos de trabalho são as minhas mãos e a enxada”, afirma.
Para ajudá-lo na horta, o lavrador paga pelo trabalho dos filhos, com exceção de Cristiano Lopes do Nascimento, 22, que agora passou a trabalhar como açougueiro. Mas o rapaz, desde criança, sempre o auxiliou. Cícero aluga metade do seu alqueire e, tirando as despesas, seu ganho líquido é de aproximadamente 700 reais por mês. No entanto, explica que essa quantia não é fixa. “A maioria das verduras não gosta de chuva e nessa época falta mercadoria. Temos de vender mais caro e não temos lucro. Por isso, não podemos fazer empréstimo, porque tem mês que não entra dinheiro”, justifica.
Há 15 anos, Joana Maria de Jesus, 53, deixou de ser empregada doméstica para ser lavradora. Desde então, ela aluga meio alqueire de Cícero, onde, ao lado de dois filhos, construiu o próprio negócio, sem nunca ter pedido um empréstimo. Além de trabalhar na horta, Joana tem banca em diversas feiras de Goiânia e ainda vende verduras, em um carrinho, pela vizinhança. Incansável, ela se orgulha de sua trajetória. “Assim criei meus quatro filhos. Os dois homens me ajudam desde crianças e as duas moças trabalham fora. Todos já são casados”, conta.
Joana Maria revela que paga 200 reais por mês de aluguel para Cícero e também paga salário para os dois filhos que a ajudam. Seu faturamento líquido é de cerca de 600 reais por mês. Alegre, de olhos brilhantes, ela conclui que trabalho cura qualquer depressão.
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