SÃO PAULO - Tema de debate no Senado, a produtividade da safra 2008/2009, anunciada ontem pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), caiu até 20% em algumas regiões brasileiras, deixando a média nacional 7,3% inferior à do ano passado. Segundo a Conab, algumas culturas tradicionais, como milho e soja, sofreram com a estiagem ocorrida no Centro-Sul, prejudicando a produtividade no Paraná, Rio Grande do Sul e Mato Grosso do Sul.
A permanência dos métodos em vigência para avaliar a produtividade foi defendida pelo ministro da Agricultura, Reinhold Stephanes. O assunto foi tema da audiência pública na Comissão de Agricultura e Reforma Agrária (CRA), realizada ontem, que analisou a atualização do Índice de Produtividade Rural. Esse índice serve de parâmetro para classificar as propriedades rurais improdutivas, para fins de reforma agrária. Na ocasião Stephanes explicou que, se entrassem em vigor os índices estabelecidos nos relatórios, " teriam um aumento médio de cerca de 100%, o que, de forma geral, foi atingido nesse período", disse o ministro.
Em sua explanação, Stephanes reconheceu que o Brasil "tem demonstrado incapacidade para proteger sua produção e seus produtores", mas reiterou que, embora a atualização dos índices de produtividade seja importante, não é hora de alterá-los. A mudança consta de portaria interministerial que define novos parâmetros, defendidos pelo ministro do Desenvolvimento Agrário, Guilherme Cassel.
Para defender a manutenção do índice Stephanes criticou até mesmo o governo. Além de imperfeições de mercado, o ministro apontou problemas de infraestrutura e falta de um marco regulatório para a exploração de jazidas de minério. "O trigo possui problemas que não tangem apenas à questão da produtividade, mas também relacionadas a outras imperfeições, como preço e mercado. E imperfeições do mercado, que, muitas vezes, são geradas pelo próprio governo."
De acordo com o ministro, nesse momento a discussão é muito mais política e até ideológica do que técnica. A afirmação também é defendida pelo deputado federal Antonio Duarte Nogueira (PSDB), que compõe a Comissão de Agricultura na Câmara. "Hoje o governo tem muitas outras prioridades. A alegação que o Ministério de Desenvolvimento Agrário faz é para quitar uma dívida do governo com o MST [Movimento dos Trabalhadores Sem-Terra]", avaliou.
Produção
Os efeitos da queda na produtividade foi uma redução de 6,8% na produção agrícola do País para 134,3 milhões de toneladas, segundo a Conab. Para o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o decréscimo foi ainda maior: queda de 8,6% em relação à safra anterior.
Apesar dos números apresentados ontem Airton Camargo, superintendente de Informação do Agronegócio da estatal, projeta uma retomada para o próximo ciclo. "A expectativa para esta safra é que se use mais insumos, que estão com preços menores, e que se tenha preços mais remuneradores ao produtor também", afirmou. Camargo disse, ainda, que a retomada da exportação de carnes suína e de aves em patamares próximos ao observado no período anterior à crise também beneficia os agricultores, já que os animais têm os grãos como base de sua alimentação.
Os últimos números divulgados pela Associação Nacional para Difusão de Adubos (Anda) já mostram uma certa equivalência na venda de fertilizantes em relação a 2008 e a indústria começa a apostar na recuperação do setor.
O primeiro levantamento do IBGE para a safra 2010 só será apresentado pelo instituto em novembro, quando a maior parte das culturas já estará plantada.
Café
Ontem a Conab também apresentou mais um levantamento da safra 2009/2010 de café. A terceira estimativa de produção total de café verde indica que o Brasil vai colher 39 milhões de sacas e área total cultivada chega a 2,1 milhões de hectares. O resultado aponta uma redução de 6,9 mil sacas (15%), atribuída a bianualidade, quando comparado à produção de 46 milhões de sacas da safra 2008.
Fonte: DCI