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sábado, 12 de setembro de 2009

Longe vai o tempo em que o leite dava bom lucro

Em nove meses, o preço pago ao produtor passou de 50 para 26 cêntimos/litro.

Lavradores "há pelo menos quatro gerações", nem nos dias de maior desalento se vêem a fazer "outra coisa" que não seja "o amanho da terra ou a tratar da lida dos animais". "Os mais pequenos tendem a acabar porque é preciso ganhar escala para ter rentabilidade. É essa a nossa luta", diz José Gurgo, o proprietário de uma das muitas explorações agro-pecuárias da freguesia do Bunheiro.

Aos 54 anos, já com a ajuda dos dois filhos, tem às costas um investimento "pesado" que, ultimamente, lhe tem dado "algumas dores de cabeça", tantas são as contas a fazer por força da quebra de 50% do preço do leite desde Dezembro.

Depois de quase uma década para conseguir licenciar e construir o novo estábulo, com uma área coberta de três mil metros quadrados, viu cair por terra as expectativas geradas nos tempos em que "o preço do leite dava boa margem".

O entusiasmo era tanto que "ajudava a esquecer o martírio" da burocracia para legalizar a exploração, que culminou com um despacho favorável com a assinatura do antigo ministro Sevinate Pinto.

A maioria dos produtores de leite não resiste às exigências da papelada, mantendo a actividade à margem da lei. "Isto resulta em concorrência desleal", lamenta Gurgo.

750 mil euros foram gastos na construção do estábulo, com recurso, em parte, a um crédito junto da Proleite, a cooperativa com sede em Oliveira de Azeméis que ali recolhe o leite para entregar nas fábricas do grupo Lactogal. "A banca não empresta dinheiro para vacarias, dizem que é de alto risco", ironiza o filho António, 28 anos.

A ordenha mecânica custou cerca de 125 mil euros, tendo sido financiada com ajudas estatais. A exploração investiu ainda no aumento do efectivo (de 30 para 90 animais, sendo 50 leiteiras), mas tem capacidade para mais. Mas, "para já", não entram em novas aventuras.

É que em nove meses o preço do leite ao produtor passou de 50 cêntimos, um pico, para os 26 cêntimos pagos em Julho, numa oscilação do mercado que pode levar "ao desespero" se não conhecer melhorias.

"Há menos de um ano faltava leite, agora há excesso. Não se percebe esta lógica", refere o jovem António, admitindo que em certas ocasiões "já se recorre às poupanças", o que "não é bom sinal".

Os custos da vacaria para produzir 1300 quilos diários de leite ultrapassa, aos preços actuais, as receitas geradas em cerca de 10%. Um animal, na sua alimentação diária, consume 50% do lucro que dá na produção. Sem incluir os tratamentos médicos, a mão-de-obra do produtor e amortizações. Nos últimos dois anos, "pesaram como nunca" os custos com gasóleo e adubos (aumentos de 200%). As farinhas (milho, soja, girassol, etc.) não foram excepção, chegando a atingir os 280 euros por tonelada (a exploração consome 300 quilos por dia).

Os apoios das grandes cooperativas, a que muitos agricultores são obrigados a recorrer para modernizar ou apenas para garantir o escoamento do leite, são dados com contrapartidas férreas: os financiamentos têm juros elevados e os sócios ainda ficam obrigados a consumir ali as rações e serviços. "Apoiam a agricultura, não os agricultores", graceja António.

Diário de Noticias - Portugal

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