Notícias da Hora

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Embrapa avalia que estratégias de médio prazo podem evitar novo "apagão" no setor de fertilizantes

O pesquisador Vinicius Benites, da Embrapa Solos, acredita que não há solução de curto prazo para reduzir a dependência do Brasil à importação de fertilizantes. "A saída é de médio prazo. Não há mágica no curto prazo", afirmou, em entrevista a Agência Brasil. Segundo o pesquisador, para identificar fontes alternativas de nutrientes para a agricultura brasileira, foi criada a Rede FertBrasil, em parceria com diversas instituições de pesquisa e empresas privadas. A meta é localizar produtos que têm efeito fertilizante, que possuem nutrientes, mas que, no momento, não são usados no sistema de produção.

Benites citou os resíduos orgânicos, como lodo de esgoto, resíduos urbanos, além de resíduos de produção animal, como dejetos de aves e suínos, que contêm grande quantidade de nitrogênio, fósforo e potássio, "e várias vezes são jogados em aterros sanitários".

Entre as medidas que podem ser tomadas para reduzir a dependência externa brasileira de insumos estrangeiros, como o potássio por exemplo, Benites destacou a implementação de um programa nacional de transferência de tecnologia.

O programa poderia orientar os produtores sobre boas práticas no uso dos fertilizantes, ou seja, usá-los de forma mais eficiente. "A gente ainda vê muito desperdício: uso inadequado, baixa eficiência do uso".

Ele também sugeriu o desenvolvimento de um trabalho com o Serviço Geológico Nacional para identificar novas minas de fertilizantes. O agrônomo reconheceu, porém, que o investimento em uma mina é muito alto, do mesmo modo que sua entrada em operação não ocorre em prazo curto.

Benites recomendou também o desenvolvimento de novas tecnologias em fertilizantes para melhorar a qualidade dos produtos utilizados. Benites destacou que esse é também um dos objetivos da Rede FertBrasil. "Trabalhar com fertilizantes protegidos, de liberação lenta, de forma a melhorar a eficiência. O conjunto dessas práticas vai minimizar o nosso problema".

Ele disse que a situação do Brasil é muito frágil. "Um país que quer ser uma potência agrícola mundial não pode ter um grau de dependência tão grande". Atualmente, o país importa quase 60% dos fertilizantes que usa.

Benites disse que não vê nenhum movimento oficial de alteração desse cenário, salvo a disposição da Petrobras de criar fábricas no país. Ele destacou que a dependência do Brasil é estrutural. Segundo o pesquisador, o país importa mais de 90% do potássio que usa. "É o nosso caso mais grave".

Isso tem uma explicação geológica, uma vez que as maiores reservas mundiais estão concentradas no hemisfério norte, principalmente no Canadá e na Rússia. A solução, frisou Benites, passa pela reciclagem.

"Sem reciclagem, nós não vamos sobreviver". Os nutrientes dos grãos, por exemplo, são tirados do solo e acabam indo parar no lixo urbano. "Então, em algum momento nós vamos ter que trabalhar no sentido de utilizar isso de novo, porque são recursos não renováveis".

Entre janeiro e julho de 2009, a produção brasileira de fertilizantes somou cerca de 4,55 milhões de toneladas, mostrando queda de 57,1% em relação ao mesmo período do ano passado.

No Brasil, apenas três grandes grupos produzem fertilizantes. Há 15 anos existe concentração de empresas no país. O pesquisador observou, contudo, que esse não é fato negativo. "O oligopólio, às vezes, pode ser interessante porque existe um ganho de escala".

Benites disse que é interessante que novas empresas surjam para aproveitar oportunidades regionais, principalmente no uso de resíduos orgânicos ou de fontes alternativas.

Os problemas e soluções para o Brasil na área de fertilizantes estão sendo debatidos hoje (25/9) durante evento promovido pela Embrapa Solos.

Pesquisa

Pesquisa personalizada