Produtores querem a volta do tabelamento. No Brasil, produzir tornou-se atividade heróica. A conjuntura nacional, aliada à maior carga tributária do mundo - cerca de 38% do Produto Interno Bruto (PIB), na casa dos R$ 2,7 trilhões -, leva o investidor a enfrentar obstáculos intransponíveis. Atualmente, produzir leite é talvez a empreitada que requer maior sacrifício e determinação, pois, além de todos
os problemas gerados pelas intempéries naturais, o produtor vem sendo massacrado pelas grandes indústrias compradoras, que atribuem ao leite preço incompatível com o custo de produção. Por vários anos, o preço do leite foi tabelado pelo governo federal, por meio de portarias da Superintendência Nacional de Abastecimento (Sunab), nas quais era determinado, mês a mês, o percentual de cada integrante da cadeia produtiva. O produtor ficava com 60% do preço pago pelo consumidor, com 40% destinados às indústrias, transporte e revendedores (padarias, supermercados etc.). Nesse período, mesmo enfrentando todos os problemas inerentes à atividade, o produtor rural conseguia sobreviver, alimentando e criando sua família com dignidade e proporcionando bons estudos aos filhos. Com a liberação do preço do leite pelo governo, o controle passou a ser exercido pelas indústrias compradoras e supermercados, que, unilateralmente, fixam o valor a seu bel-prazer, com os produtores tomando conhecimento do que de fato vão receber 45 dias depois do início do fornecimento, acarretando inversão dos percentuais atribuídos aos componentes da cadeia produtiva, na qual se atribui aos produtores, em média, de 30 a 40% do preço imposto ao consumidor. Inacreditável, mas em plena entressafra, quando o correto seria que o leite tivesse o preço aumentado, como ocorria anualmente, o que se vê atualmente é sua redução pelas indústrias.
Enquanto a seca começa rigorosa, os insumos aumentam. Entretanto, os órgãos da classe não lutam pelos produtores para mudar o quadro desanimador. Nesse cenário opressor, o produtor vem se desfazendo de seus plantéis, mesmo depois de ter se dedicado por longos anos à melhoria genética; começam a buscar sua subsistência e de sua família em alternativas de produção. Mas a produção de leite precisa continuar, e a esperança é a volta do tabelamento do preço pelo governo federal, assegurando aos produtores um preço mínimo que cubra o custo de produção e proporcione lucratividade que garanta a eles e sua família vida digna, como outrora. Compete, portanto, às federações de agricultura dos estados, à Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), alicerçadas nos sindicatos a elas filiados, se unir com o objetivo único de exigir do governo federal a implantação do tabelamento do preço do leite, com base nos custos de produção elaborados pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). Sem isso, a bancarrota se avizinha.
Fonte: Estado de Minas